18/11/2017

Hip hop e produção acadêmica

Este mês de novembro, considerado mês do hip hop, marca uns 30 e tal anos da presença desta cultura urbana em Cabo Verde, já que a sua entrada nas ilhas aconteceu nos anos de 1980 e não nos anos de 1990, como às vezes ouço. Em termos de produção das ciências sociais, o rap tem sido enquadrado nos estudos culturas e em Cabo Verde, apesar de já haver estudos recentes no âmbito cultural, em que na esteira da proposta teórica de Stuart Hall reinterpreta-se temas como identidade e hibridismo cultural, embora faltando o carácter etnográfico, o estudo do rap (e de outras formas de arte e culturas urbanas) é ainda encarado como algo sem sentido e pouco acadêmico. Ainda assim, começa a surgir algumas publicações acadêmicas e alguns trabalhos monográficos de final de curso, em que destaco os meus trabalhos:

2017: Rap e pesquisa etnográfica, Revista Desafios, Cabo Verde.
2015: Cultura de rua e políticas juvenis periféricas: aspetos históricos e um olhar ao hip hop em África e no Brasil, Revista Famecos, Brasil (com R. Martins e M. Barros) .
2015: Do finason ao rap: Cabo Verde e as músicas de intervenção, Buala, Portugal.
2015: Lógicas de desafiar a mudança nas "periferias" do espaço urbano em (i)mobilização, In: Expressões artísticas urbanas: etnografia e criatividade em espaços atlânticos, Brasil.
2012: Rappers cabo-verdianos e participação política juvenil, Revista Tomo, Brasil.
2012: Rap Kriol(u): o pan-africanismo de Cabral na música de intervenção juvenil na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde, Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais, Brasil (com M. Barros).
2012: Cabo Verde. Rap dos anos de 1990: o fenómeno Tchipie na reconstrução e representação da identidade feminina e de resistência, Buala, Portugal.
2011: Tribos urbanas da Praia: os casos dos thugs e dos rappers, In: e-book_In Progress, Portugal. 

[Na imagem Hip Hop Konsienti by Dudu Rodrigues, 2009].

12/11/2017

Sim, delinquentes são os outros

Cheguei a ser contra a instalação dos parquímetros no Plateau, não por achar desnecessário, mas injusto com quem mora e trabalha no bairro. O processo da criação do EMEP foi algo muito pouco transparente e nunca entendi o modelo da colocação de guardas municipais na aplicação de multas, quando em outras partes do mundo, esta atividade surge como oportunidade de criação de empregos, sobretudo para jovens. Por exemplo, muitos "doutores" e demais aspirantes a qualquer coisa ligado ao poder por cá suportaram os estudos etc e tal neste tipo de trabalho. Enfim, opção políticas que só quem os tomou deverá explicar. No entanto, a coisa em si até funciona, mas funcionaria muito melhor se houvesse fiscalização e a CMP não assobiasse para o lado, legitimando assim o Presidente da coisa como o Senhor Todo Poderoso, poder que ele não detêm nem poderá deter. Quem paga os guardas municipais somos nós...  

Em 2014, perante vários episódios de delinquência institucional por parte da EMEP, o Provedor da Justiça de Cabo Verde chegou a denunciar práticas ilegais nas instruções de processos de contra-ordenações e na recusa de venda de dísticos mensais e fez uma série de recomendações, que não sei se foram ou não levadas em consideração. 

Esta denúncia apenas mostra que a EMEP funciona e continua a funcionar como um grupo organizado em práticas ilícitas, nomeadamente extorsão, com cumplicidade da CMP. Há outros casos de residentes do Plateau com dificuldades em obter o dístico anual de moradores de que têm direito, apenas porque o senhor Presidente entende, consultando a si próprio, que não deve conceder. Perante estas situações, o direito de habitação está evidentemente posta em jogo, para além de configurarem atitudes de delinquência institucional. Ainda assim, os responsáveis da nação querem que os cidadãos e, sobretudo os não-cidadãos, acreditem nas instituições cabo-verdianas. Isto depois das denúncias de Amadeu Oliveira, sobre a existência de uma Máfia do Sistema Judicial, assunto, aliás, já denunciado pelo Juiz Conselheiro Raul Varela.      

[Na imagem Gangster Rat by Banksy, 2006] 

31/10/2017

Violências, jovens e identidade thug

Num artigo a publicar no próximo mês, assunto aprofundado na Tese de Doutoramento em processo construtivo, vem a seguinte afirmação: "(...) uma análise secular das violências em Cabo Verde, nomeadamente no contexto santiaguense, complementado por um trabalho etnográfico, permite estabelecer relações entre o processo de desumanização do homem negro desterrado nas ilhas no período do tráfico negreiro e sua posterior construção em demônios populares após a criação da figura do "badio" (negro fujão), hoje (re)vivenciado no contexto urbano pela figura thug enquanto emblema identitário de resistência reconfigurado a partir das narrativas de Tupac".

[Imagem

25/10/2017

Da série "negrificar as mentes clarificadas"

Sempre que um cabo-verdiano falar na forma como a Europa trata os imigrantes africanos, que é péssimo, convém ele lembrar também como nós, os cabo-verdianos, tratamos os imigrantes do continente ("os mandjakus"), sobretudo nas nossas fronteiras. Sempre que falarem do SEF, lembrem-se da PN/PF. Sendo verdade que muitos do continente olham Cabo Verde como uma oportunidade de chegar à Europa, legal ou ilegalmente, é também verdade que, na última década, muitos killers cabo-verdianos olharam Senegal como uma oportunidade de fuga e/ou um caminho para se chegar à Europa, legal ou ilegalmente.