22/06/2017

Da série muda-se o pacote, mas o conteúdo é o mesmo

Não conheço o programa em si, muito menos sei se existe um outro como complemento, mas pela fala de quem apresentou a coisa, claramente uma medida excluidora de uma boa parte dos jovens cabo-verdianos. Convém não esquecer que todas as decisões políticas são frutos de escolhas, o que cria uma situação de violência política quando as decisões tomadas em nada se baseiam num conhecimento aprimorado do situação em que se pretende atuar, mas em meras questões ideológicas ou simplesmente casmurrice. Pior é, quando se ignora o fato de que estes tipos de escolhas sempre trazem no seu bojo consequências nefastas derivadas do mal-estar que cria. 

[Na imagem The Unaddressed by Fuaxreel]

17/06/2017

Criminalidade urbana e políticas repressivas

Cabo Verde desde 2005 (há quem defende que ainda mais cedo) adotou o paradigma inquisitório de combate à criminalidade, o que na prática significou o ataque aos efeitos e não às causas. Sendo assim, normal é que os índices da criminalidade não cessam de subir, apesar a cegueira do atual Ministro da Administração Interna. Desde 2010, eu e outros pesquisadores, tínhamos alertado para as consequências nefastas que as políticas exclusivamente repressivas (com rasgos de assistencialismos do serviço social da igreja do século XIX) poderiam trazer ao espaço social cabo-verdiano no geral e praiense em particular. Mas, como disse alguns, nós não fazemos ciência e nem sequer metodologia de trabalho temos. Os mesmos que de repente descobriram que a "raça" é uma importante variável a ter em conta no estudo de várias problemáticas em Cabo Verde, sobretudo na questão da criminalidade, bem como a necessidade de se fazer uma rutura com o legado eurocêntrico sob pena de continuarmos a reproduzir os discursos que consideram o continente africano como uma espécie de museu de antiguidades europeias. Contudo, destes, há os que não obstante a bazófia acadêmica ainda não perceberam que se encontram desatualizados e os que não obstante o avanço de ponto de vista epistemológico ainda não perceberam que lhe falta os sujeitos.  

Do fenômeno em si, num artigo publicado em 2012, chamava a atenção para o processo de redefinição dos grupos armados e sua atividade criminosa que a política repressiva cega poderia estar a conduzir. Cinco anos depois, as evidências são elucidativas. Nos anos de 1990, ao se constituir as crianças em situação de rua como um problema social, a prisão surgiu como solução. Encarcerou-se crianças com menos de 16 anos de idade (numa grotesca violação da Constituição da República) e os que tinham 16 anos foram condenados por crimes (na sua esmagadora maioria por furto e roubo) cometidos enquanto menores de idade (uma outra grotesca violação da Constituição da República). Levaram em média 4 anos de prisão. É verdade que o fenômeno das crianças em situação de rua, pelo menos daqueles que viviam e dormiam nas ruas, diminuíram significativamente, mas não a criminalidade ou a violência. Nos anos de 2000, tanto na Praia como no Mindelo, as antigamente chamadas "crianças de rua" desapareceram. Contudo, esse desaparecimento momentâneo não se deveu à aplicação de políticas públicas, porque o contexto de marginalização dessas famílias continuou igual. O diferente foi a transformação dos grupos de amigos de rua em gangues de rua, o que proporcionou às crianças que em situação normal se deslocassem para os centros da cidade em busca de sobrevivência, a emergência de um espaço de convivilidade, afirmação e partilha de táticas de sobrevivência nos limites do bairro.

Com o conflito armado declarado entre os grupos juvenis na Praia, a partir da segunda metade dos anos de 2000 (como consequência do conflito armado entre as fações dos agrupamentos menos jovens) a violência coletiva ganha novos contornos na cidade, aproximando daquilo a que Tatiana Moura denominou de novíssimas guerras. O que as evidências estatísticas nos mostram é que a pacificação dos bairros possibilitou o fim das trincheiras físicas urbanas, permitindo a livre circulação do pessoal, que não encontrando nichos de resistências territoriais, fez com que o chamado kasubodi ganhasse visibilidade, sobretudo devido à mudança do modus operandi da nova configuração da criminalidade coletiva. Esta última evidência transporta-nos de novo às políticas repressivas e à sua expressão física que é a prisão. Uma das críticas que hoje se faz à criminologia tradicional ou à sociologia clássica do crime é o fato de ainda não terem percebido o papel central das prisões na organização e sofisticação da criminalidade coletiva urbana. Convém não esquecer que as crianças que foram encarceradas por delito comum nos anos de 1990, ao serem libertos, a maioria encontrou nos gangues o único espaço possível de integração e afirmação e a sua volta à prisão deveu-se a crimes ainda mais violentos, por um lado, e que os membros de gangues encarcerados a partir de 2009 e libertos a partir de 2015, trouxeram novos aportes táticos à atividade criminal, por outro lado.

Arrogantemente diria que não perceber estas relações na compreensão do fenômeno da criminalidade urbana em Cabo Verde é um ato puramente idiota e ignorante, só possível num contexto fortemente marcado pela escravatura mental expressada na cultura do "papagaísmo" e "macaquismo" intelectual e científico.       

[Na imagem Mona Lisa by Urban Maeztro, Honduras]

13/06/2017

Lista de selecionados para o programa de residência IMJA

Publicada a lista de selecionados para o programa de bolsas de residência das periferias do IMJA. De Cabo Verde irá participar no programa o jovem sociólogo e ativista Alexssandro Robalo, com uma bolsa de pesquisa social nas periferias.

Co-fundador do coletivo IPUK, no qual coordena o Núcleo de Estudo da Arte Oral (NEAO), é ativista do Movimento Federalista pan-Africano e ex-líder associativo acadêmico, entre 2013 e 2014, e tem como interesse de pesquisa as músicas de protesto (rap), arte oral africana, descolonização epistemológica, movimentos sociais e lutas políticas. 

[Na imagem lista dos selecionados para a residência sobre as periferias do IMJA 2017]

28/05/2017

FRESH STREET #2 | Over the seas - street art beyond Europe

"Cegos", performance de intervenção urbana protagonizada pelo Desvio Coletivo, de São Paulo, grupo com qual dialoguei, juntamente com representantes de Macau e Israel, sobre arte de rua enquanto ato político, no painel "Over the seas - street art beyond Europe", no FRESH STREET #2.

[Na imagem Overview session #2, Santa Maria da Feira, Portugal. Foto by Circostrada Network, 2017]

17/05/2017

Rap, coerência e discurso político

Numa época em que no processo de afirmação juvenil e social muitos rappers e MC's são "obrigados" a higienizarem-se, ou seja, transformarem-se em artistas, como que se o rapper não é ele próprio um artista (que na prática significa estar com uma banda, simulando uma espécie de indigenização do rap, que na verdade não o é, fenômeno este que deve ser pensado apenas inserido numa lógica de luta simbólica entre uma suposta arte legítima e arte ilegítima também rotulada de música papel higiênico), a semana abre com a colocação nas ruas de duas boas obras do rap tal e qual como o gosto de ouvir.

Guerra Santa de Ex-Pavi e D12A5 de S.O.S.

Vídeo oficial de Deuses & Homens aqui.

Vídeo oficial de D12A5 aqui.

[Na imagem Guerra Santa de Ex-Pavi, 2017]

01/05/2017

Lucy Parsons - Take The Power Back - Rage Against The Machine

"Os anarquistas sabem que um longo período de educação precisa preceder qualquer grande mudança fundamental na sociedade, uma vez que não acreditam na miséria do voto, nem em campanhas políticas, mas sim no desenvolvimento de indivíduos com pensamento autônomo." - Lucy Parsons, Os Princípios do Anarquismo, 1890. 

Embora haja contradição a respeito, há quem defende que Lucy nasceu escrava. Certo mesmo é o fato dela ser uma das razões por hoje existir o primeiro de maio. Ativista, anarquista, feminista e escritora.

E num dia como hoje, di kumi i bebi, nada melhor do que um Take The Power Back dos Rage Against The Machine para subir a moral da malta subversiva. 

[Na imagem Lucy Parsons, 1853 - 1942]

30/04/2017

Programa de bolsas de residência sobre as periferias - IMJA

Com vista à construção do projeto Internacional das Periferias, na sequência do encontro da Maré em março último, o Instituto Maria e João Aleixo torna público o primeiro processo de seleção de bolsistas para residência em programa de formação (três para o continente africano) a ser realizado entre os meses de agosto e dezembro do corrente ano, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro. O critério de elegibilidade é ser da área das periferias, ter interesses em artes, ativismo ou empoderamento comunitário e ser politicamente engajado.