17/10/2020

Da irresponsabilidade político-partidária e dos titulares dos cargos pilíticos

Brigas entre militantes e simpatizantes dos dois maiores partidos políticos não é uma novidade cabo-verdiana e aqui já acontecia nos anos de 1990, sobretudo em Santa Cruz. Ganha novo impulso nos anos de 2000 e intensifica-se já com recrutamento de membros de gangues de rua no período eleitoral 2011-12, como retratado aqui. A juntar à reprodução da violência por parte dos partidos e seus militantes, neste contexto pandémico em que vivemos, não é demais começarmos igualmente a falar da violação do direito à saúde e à vida. 

[Imagem: Felipe Dana, 2016]

10/10/2020

Os jovens e a participação política

Há esse analfabetismo funcional em Cabo Verde, fomentado inclusive por alguns pesquisadores, jornalistas, consultores e políticos profissionais, que remetem a participação política às estruturas partidárias, cargos políticos ou aos períodos eleitorais. Essa tendência de considerar organizações ou associações políticas juvenis apenas os jotas. Ou de tomar os vários movimentos surgidos na Praia nos últimos anos como expressões da subpolítica, sem dar conta da carga eurocêntrica e institucional que este termo carrega quando aplicado ao contexto africano. 

Ignorando ou desconhecendo que, de forma organizada ou semi-organizada, o rap já o faz desde os anos de 1990, a política de rua é uma realidade desde, pelo menos, o ano de 2005, sem falar dos movimentos comunitários e transcomunitários ativos desde os finais dos anos de 2000 e intensificado depois dos anos de 2010. Ou seja, aquilo que hoje chamamos de política comunitária. Isto sim, resultado das más decisões, incumprimentos das promessas e arrogância político-partidária.    

[Foto: Yasuyoshi Chiba, 2019]

20/09/2020

Nós e os Venturas cá da casa

Convém não esquecer que o Ventura só não esteve ainda nas ilhas por causa do fecho das fronteiras em março e segundo o próprio já cá tem tentáculos, como encontra por cá uma tropa autointitulada democrática completamente alienada e reprodutora da conversa do marxismo cultural e, na sequência, de muito destas barbaridades da dita nova direita judaico-cristã. Sobre estes, como diria Meera Nanda, escritora e historiadora indiana, apanhada de um texto de Jandira de Barros, o que há a dizer é que "uma coisa é aceitar um relativismo cultural que respeita a variedade da cultura humana; outra, inteiramente diferente, é dotar um relativismo que transforma esses valores culturais variados no único ou principal padrão de verdade, de modo que a verdade passa a ser simplesmente o que se ajusta a um dado sistema de crenças, ao invés de aquilo que descreve fielmente o mundo que existe independentemente de nossas crenças".    

[Foto: Filipe Dana, 2019]

12/09/2020

Da opção pelo urbanismo bling-bling e arquitectura ornamental

Há sempre os filhos e/ou os funcionários do partido que provavelmente buscam por todos os meios minimizar a coisa. Contudo, há que dizer quatro coisas: 1) ao contrário do que circula, quem sempre viveu na Praia sabe que este não é nem de longe a pior chuva que esta cidade conheceu, pelo menos dos anos de 1980 a esta data, que felizmente nem vento fez, caso contrário o saldo seria bem pior; 2) em 2017, no âmbito do CityRAP, no pilar da gestão do risco e desastre urbano foram identificados várias lacunas, em que se apresentou um conjunto de propostas, mas optou-se pela consolidação do urbanismo bling-bling e arquitectura ornamental; 3) devido a essa opção e a teimosamente se continuar a não pensar a cidade como um todo, de forma estruturante, numa ilha que tem um histórico de chuvas gordas, zonas consolidadas desde os anos de 1960 experimentaram inundações nunca antes vistas; 4) os jovens que antes eram tidos como irresponsáveis e hoje inactivos foram os que fizeram de bombeiros da ocasião em vários lugares, num djunta-mon só estranhado por aqueles que tem o hábito de olhar para a Praia apenas do poleiro social que o eixo centro-sul lhes proporciona.        

[Foto: Mário Macilau, 2020]

07/09/2020

Da hipocrisia social e institucional

Em Cabo Verde e na Praia em particular a vinda de chuva sempre foi uma festa pública de multidão, do tipo festival da chuva. Num contexto em que não chovia de forma abundante há 5 anos, não se podia esperar outra coisa, não obstante a situação epidemiológica do país e do mundo. Portanto, apesar da indignação do IGAE ser compreensiva, peca pela selectividade e promoção de um tipo de estigmatização social já reproduzida em abril pela TCV. 

O que se sabe é que em todos os bairros foi esse o cenário e não apenas no bairro do Brasil da Achada Santo António e há provas visuais de restaurantes in com enchentes de gente dita respeitada, sem falar do carnaval pré-campanha marcada pelas enxurradas de inaugurações de todo o tipo, no entanto, sem que o IGAE tivesse publicamente manifestado a sua indignação.   

[Foto: Daido Moriyama, 1969]