22/06/2018

E que tal um movimento de cidadania insurgente para a substituição da estátua Diogo Gomes pelo memorial de Amílcar Cabral?

Mudança de memorial de Amílcar Cabral gera polêmica na cidade da Praia 

No ano de 2009, no Festival Hip Hop Konsienti, Nax Beat cantou:

(...) N' ka kre odja statua di Cabral rostu pa simiteriu | Di Diogo Gomes rostu pa palasiu di guvernu | Dja sta bon di rodidju ku purtugues* (Nax Beat . Odja, Obi, Ntendi, Dipoz Fala - Vizon Kritiku - 2009).

Vejamos a coisa deste jeito: ao invés da costumeira tática reativa, aproveitando a suposta deixa da CMP, pela boca do seu PR, de que a decisão não é definitiva e que estão abertos a discutir desapaixonadamente essa questão, que tal a malta se organizar num movimento de cidadania insurgente (ou se preferirem, o termo mais soft movimento de pressão total) e exigir a mudança do memorial de Amílcar Cabral para o Plateau. Aliás, falar de centralidade e juntar esta palavra àquela da memória, o futuro memorial de Amílcar Cabral só fica bem no atual local onde se encontra a estátua de Diogo Gomes. De ponto de vista simbólico, tal ato representa uma ação contra-colonial. Por outro lado, ainda no âmbito simbólico, uma estátua de Diogo Gomes na rotunda do Homem de Pedra a espreitar de mansinho o Palácio do Governo faz todo o sentido.     

*(...) Não quero ver a estátua de Cabral com a cara virada para o cemitério | E a do Diogo Gomes virada para o palácio do governo | Chega de esquemas com os portugueses.

[Na imagem Amílcar Cabral by Hélder Cardoso, 2017. Foto RWL]

11/06/2018

Universidadi Nhanha Bongolon

Apesar das idiotices que já li e ouvi sobre a Universidadi Nhanha Bongolon, ela não é nem tem ou poderia ter pretensão de ser uma Instituição de Ensino Superior (que diga-se de passagem, existe a mais no território nacional). Aliás, apenas num contexto marcado por formalismos coloniais tal relação se aventa. Ela é um espaço que tem como ambição transformar-se numa plataforma transnacional de discussão horizontal de conhecimento(s) alternativo(s), orientada por uma epistemologia de transgressão e organizado periodicamente de forma itinerante. É promovido por um conjunto de coletivos africanos e cabo-verdianos constituído por ativistas e pesquisadores comprometidos com a ideia da emergência de uma ação colaborativa de política engajada com base ideológica libertária e pan-africana, criada na sequência de iniciativas como Djumbai Libertariu e Universidade Kwame N'Kruma. Integra um conjunto de outras ações em construção e, para além de um espaço de produção de conhecimento(s) alternativo(s), pretende ser, igualmente, um espaço de promoção de conhecimento(s) através de publicações em formato de dossiês temáticos.

[Na imagem Stand de Livros na Universidadi Nhanha Bongolon. Foto RWL]

02/06/2018

Da série "reprodução da cultura do macaco e do papagaio"

Não sei qual o mais idiota, se o intelectual provinciano que ignora propositadamente e, por conseguinte, ideologicamente, que a relação entre a pobreza e delinquência foi estabelecida no século XIII pelo frade católico e epistemólogo Tomás de Aquino (Karl Marx só nasceu nos finais do século XIX), desenvolvido posteriormente no século XIV pelo humanista e renascentista Thomas More ou se a sua claque online.

[Imagem tirada da net]

31/05/2018

Planetary Gentrification

Nos dias que correm, para além dos discursos da economia do conhecimento, os discursos da estética nas economias ganham relevância, levando àquilo a que vários autores dos estudos urbanos têm denominado de esteticização da economia, da vida quotidiana e das paisagens urbanas. Sharon Zukin, por exemplo, utiliza o conceito para dar conta da duplicidade contrastante e bipolarizada que carateriza as novas economias urbanas. Segundo a autora, as atividades econômicas exigem crescentes preocupações de natureza estética, ao nível da arquitetura dos edifícios, do mobiliário e decoração, da imagem de uma marca, da apresentação dos espaços. dos objetos comercializados e do próprio pessoal de atendimento ao público, como parte integrante de estratégias de competitividade econômica. Isto acentua cada vez mais o processo de esteticização das paisagens urbanas. Contudo, nas traseiras desses espaços (ou como se disse por aqui na campanha eleitoral de 2012, nas ruas de trás), essas preocupações de esteticização estão ausentes. Embora espaços marginais, estes compõem igualmente as novas economias urbanas, visto estarem povoados de trabalhadores precários e restantes "classes perigosas". Estas observações, complementadas pela leitura do Planetary Gentrification, entre várias outras obras sobre o tema, ajudam na compreensão das atuais dinâmicas urbanas pós-Consenso de Washington, entendido aqui como uma (re)atualização da Conferência (Consenso) de Berlim em formato urbano globalizado e globalizante, e abrem um campo de possibilidades de análise da atual questão urbana praiense, assim como dá importantes pistas de reflexão sobre a situação social e criminológica que hoje se vive das "ilhas gentrificadas" do Sal e da Boa Vista. 

30/05/2018

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação. Livro organizado por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, editado pela Tinta da China. A apresentação terá lugar nas cidades de Lisboa, Coimbra, Praia e Mindelo nos dias 7, 8, 12 e 14 de junho respetivamente e na cidade de Bissau no mês de setembro. Conta com 47 artigos assinados por 51 autores. Com Miguel de Barros, numa nova parceria, assino a entrada sobre o assassinato de Amílcar Cabral e a disputa atual do seu legado entre os "velhos camaradas" e os "novos cabralistas" na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

[Na imagem Capa do Livro]