24/02/2017

Plano nacional de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes

Acaba de ser publicado o Plano nacional de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes, que teve como suporte uma pesquisa qualitativa por mim realizada em 2014, que ao contrário dos dois estudos anteriores, em que se priorizou levantamentos quantitativos e amostrais com base nas demandas dos serviços de atendimento, se procurou identificar a existência de contextos e peculiaridades culturais que favorecem a sua persistência.    

22/02/2017

Da escravização negra à política da Lei e Ordem

Há dias vi 13th, filme documental que analisa a correlação entre a criminalização da população negra dos EUA e o boom do sistema carcerário do país, pouco tempo depois de ter iniciado a leitura do Policing the Planet: why the policing crisis led to black lives matter (coletânea de artigos editada Jordan T. Camp e Christina Heatherton) e Punishiment and inequality in America de Bruce Western.

Loic Wacquant, num artigo publicado em 2001 intitulado Symbiose Fatale. Quand ghetto et prison se ressemblent et s'assemblent, apresenta os quatro "dispositivos especiais" que nos últimos quatro séculos têm produzido uma ordem etno-racial nos EUA, constituindo uma linha de cor através do confinamento e controlo dos cidadãos negros norte-americanos: 1) a escravatura (1619-1865) baseada no sistema de plantação, apresentando como a matriz original de divisão racial do período colonial à guerra civil; 2) um sistema legal de discriminação e segregação racial conhecido como Lei Jim Crow (1865-1965) que substitui a escravatura no Sul; 3) o gueto (1915-1968), uma forma de conter os descendentes dos escravos nas metrópoles industriais do Norte provenientes do Sul nas grandes migrações dos negros norte-americanos entre os anos de 1914/30-1960; 4) o hipergueto e a prisão (a partir de 1968), um novo complexo institucional composto por vestígios do gueto negro e o aparelho carcerário, em que ambos passam a estar vinculados por uma estreita relação de simbiose estrutural e substituição funcional.  

W.E.B Du Bois, no The Philadelphia negro: a social study, identificou no final do século XIX o início da instalação do complexo industrial prisional norte-americano, que na sua perspetiva representava uma continuidade clandestina da escravidão da população negra norte-americana, fato esse hoje retratado por vários estudiosos do crime nos EUA, sobretudo na era pós Richard Nixon (a partir de 1968), reforçado por Ronald Reagan, nos anos de 1980, com a introdução na política criminal do discurso Lei e Ordem, que culminou na política de Tolerância Zero de Rudolph Giuliani, nos anos de 1990, desenvolvida na cidade de Nova Iorque. Contudo, convém não se esquecer o contributo do casal Bill e Hillary Clinton no processo.

Esta tendência ideológica espalhou-se num primeiro momento para a Europa e América Latina e a partir da segunda metade dos anos de 2000 para Cabo Verde, cuja análise pode ser encontrada nos trabalhos de Lorenzo Bordonaro, Peter Zoettl e Katia Cardoso. Atualmente, como apontam alguns observadores do crime, com Donald Trump o discurso da Lei e Ordem é elevada a uma nova dimensão, englobando no processo mexicanos, refugiados árabes e populações muçulmanas.
  

12/02/2017

O nós e os outros (re)actualizado

O discurso não é novo, muito menos inesperado. Para Trump e seu elenco governamental, refugiados e muçulmanos são sinônimos de terroristas, latinos equivalem a traficantes de drogas e negros são membros de gangues. Nas Hespérides crioula, alguns trumpistas já mal conseguem disfarçar o embaraço, mas não obstante a sua tão elevada inteligência proclamada, ainda não deram conta que correspondem ao novíssimo perfil racial do mal.    

[Imagem de Tchalé Figueira, 2016]

10/02/2017

FRESH STREET#2

No próximo mês de Maio irei participar no International Seminar for the Development of Street Arts, em Santa Maria da Feira (Portugal) onde falarei sobre o street art no contexto cabo-verdiano no painel Over The Seas - Street Arts Beyond Europe, em modo busca de possíveis parcerias para um projeto de intervenção urbana nas ilhas.

09/02/2017

A ideia do Cabo Verde Global e o discurso dos novos compromissos

Isto de afirmar que a nação é global, ou seja, que ultrapassa em muito as fronteiras físicas e a população residente no país, para se projetar através da nossa diáspora na Europa, nas Américas, em África e em todo o mundo é deveras algo muito giro de estar estampado num Programa do Governo, mas é quando surge situações do tipo é que se terá a oportunidade de se provar na prática o tal compromisso do Estado em assumir as comunidades cabo-verdianas emigradas como uma das suas mais altas prioridades. 

[Na imagem parte do bairro de Santa Filomena, Amadora, 2012, Foto RWL]

30/01/2017

Rap e pesquisa etnográfica

Amanhã será publicado a edição número 3 da Revista Desafios, no Campus do Palmarejo da Uni-CV, em que participo com o artigo "Rap e pesquisa etnográfica", escrito em 2013, na sequência da participação no V Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia desse mesmo ano, em Vila Real, Portugal, com a comunicação "Rap Kriol(u) e a pesquisa etnográfica: lógicas de desafiar a mudança no espaço urbano em (i)mobilização", como complemento do artigo publicado em 2015 nesta obra colectiva. O artigo analisa, por um lado, em que medida o rap, entendido como prática cultural juvenil urbana, tem revitalizado o exercício da cidadania e, por outro, de que forma uma pesquisa etnográfica engajada ajuda a alargar o marco compreensivo de realidades subalternas ignoradas nas ciências sociais, contribuindo assim para o "empoderamento" juvenil individual e colectivo.   

[Na imagem convite do lançamento da edição n. 3 da Revista Desafios]