21/08/2016

Cabo Verde e as desigualdades sociais

Entre o país da ilusão herdado do partido tambarina e a promessa do país de felecidade avançado pelo partido rabentola, o que importa neste momento é o país real apresentado nesta trilogia de reportagens sobre as desigualdades sociais, assinada pela jornalista Chissana Magalhães, no Expresso das Ilhas: 1) o desafio que persiste; 2) movimentos de denúncia e contestação; 3) ter ou não ter.

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07/08/2016

Rap, sociologia e movimentos de contestação

O meu primeiro contacto com o rap foi no início dos anos de 1990, no Liceu Domingos Ramos, na Praia, embora, nos finais dos anos de 1980, ainda criança, já seguia alguns jovens que ocupavam a Praça Alexandre Albuquerque, no Plateau, onde eram emitadas algumas acrobacias do break dance visionadas no filme Breakin'. No entanto, a escolha do rap como tema de estudo apenas aconteceu em 2010. Inicialmente, devido à percepção da relevância desta expressão musical no contexto dos gangues de rua e, posteriormente, com a frequência das últimas sessões do Festival Hip Hop Konsienti, promovida por Dudú Rodrigues, ao perceber que para além do rap funcionar como uma nova forma de protagonismo juvenil, afirmação de uma identidade cultural e de protesto, bem como um espaço por onde África estava a ser (re)descoberta, a cultura hip-hop proporcionava novas formas de socialização dos jovens.  

Se para muitos jovens africanos o rap funcionou como a voz de mudança e representação de um futuro de esperança e de unidade pan-africana, personagens como Mumia Abu-Jamal denuncia a sua utilização como uma espécie de soft power na propagação da ideologia e dominação modernista (norte-americana), assim como a exportação da misoginia e violência. Entendido como um fenómeno pós-colonial, apesar das críticas de Abu-Jamal, autores como Zine Magubane defendem que esse estilo musical tem fornecido aos jovens africanos uma poderosa ferramenta de crítica à modernidade ocidental, contribuindo para a sua indigenização. 

No caso cabo-verdiano, como escrevi aqui, o estudo do rap a partir da perspectiva de perto e de dentro e enquadrado naquilo que Jean-Marc Ela chama de "antropologia do próximo", proporciona evitar simultaneamente a reprodução do "complexo electra-claridoso" de que fala Aquilino Varela e do síndrome elitista de alguns intelectuais e investigadores cabo-verdianos, como também novas ferramentas analíticas de compreensão de uma parte da nova geração juvenil em processo de indigenização. Por outro lado, entender o fenómeno dos gangues de rua passa por tomar o gangsta rap como uma fonte etnográfica, situação esta, segundo John Hagedorn, completamente ignorada pelos criminologistas. 

30 e tal anos depois da apropriação do rap pelos jovens cabo-verdianos e de origem cabo-verdiana pelo mundo fora, nas ilhas, já surgiram versões nacionalizadas de Heavy D, 2 Pac, DMX, Gabriel O Pensador, Azagaia, entre outros. Entretanto, penso que nesta nova conjuntura sociopolítica muito se poderá ganhar a nível da maturidade democrática, caso venha a surgir uma espécie de versão cabo-verdiana da Keny Arkana.

Até lá, 13 rappers crioulos que estão a marcar a diferença do hip-hip dito "lusófono". Entre muitos outros cá nas ilhas que poderiam integrar esta lista, destaco Wolf Gang e Karaka, que pelo bem e pelo mal foram os dois maiores responsáveis na massificação do rap em Cabo Verde.  

[Na imagem "Repa" by Dudú Rodrigues, 2010. Do projecto PraiaPop: Tribus Urbanus]

22/07/2016

La rue nous appartient


Há erros que são humanos e desculpáveis mas há outros que são idiotices que ao se juntar doses duplas de arrogância transformam-se em autoritarismos bacocos. O que a história nos mostra é que até os tsunamis perdem força com o tempo e ocupações são políticas de rua úteis quando alguns sujeitos são colocados ante situações que violam o interesse colectivo. 


[Imagem apanhada na net]

03/07/2016

Cabo Verde e o "Trafficking in Persons Report 2016"

Em 2014, no âmbito do estudo sobre o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes em Cabo Verde, chamamos a atenção para indícios da existência de tráfico humano em Cabo Verde para fins de exploração sexual na e a partir das ilhas de Santiago, São Vicente e Sal. 

Neste relatório (p. 116-117), Cabo Verde é colocado na lista dos países em observação e onde se encontram os países que não cumpriram os padrões mínimos no combate ao tráfico de pessoas, embora se reconheça alguns esforços em matéria de alterações no quadro legal. Em termos práticos, pouco ou nada foi feito. 

[Imagem sacada na net]

02/07/2016

"Monkey TNT Detonator"

Do disparate da criação da tal Agenda Anti-Cunha (da forma como foi criada) ao disparate da sua anulação (da não interiorização dos erros dos anos de 1990), o que fica é que para lá das politicas de despartidarização da Administração Pública, que mais se assemelha a políticas de des-paicvização e re-mpdização da mesma, as lógicas de compadrio e clientelismo que, em parte, explica a manutenção de alguns "surfistas do sistema" nos seus postos, ao que parece, ainda vigoram.

Concordando com a afirmação recente de um amigo, quem não se encontra nas listas do email ou do telefone dos novos donos do poleiro ou no dos seus seus amigos continuará segregado, o que coloca em dúvida o discurso cosmetizado da igualdade das oportunidades, méritos e afins, cimentando a ideia da reprodução de novos modelos de segregação das mesmas e, consequentemente, das desigualdades.

Com isto quero tão só dizer que percebo e concordo com o princípio mas descordo completamente com a condução da coisa. Contudo, devo também dizer que acho um must ouvir dos membros do gangue amarelo afirmações como "distribuição de tachos" e "bullying político"